Por Karina Gera – escritora, arte-educadora e mestre em Linguística
Antes de ser escritora, fui ouvinte. Antes de escrever para crianças, eu escutava histórias no colo da minha mãe, e ali, nas entrelinhas da fala, nasceu meu encantamento pela palavra.
Com o tempo, percebi que minha paixão pelas histórias não era só estética. Ela era afetiva, simbólica, viva. Queria escrever, sim, mas queria entender profundamente como as palavras funcionavam. Como elas tocam, transformam, brincam, educam, acolhem.
Foi assim que cheguei à Linguística.
Da paixão pela palavra ao estudo do sentido
Sou mestre em Linguística, com foco em Semiótica, e escolhi esse caminho porque queria somar conhecimento à minha escrita. Queria ir além da intuição criativa — e compreender como a linguagem constrói sentidos, emoções e relações.
A Linguística me ensinou que escrever para crianças não é escrever “menos” — é escrever com mais cuidado, mais escuta, mais intenção. É pensar na linguagem como gesto, som, olhar, pausa. É entender que a infância lê com o corpo inteiro, e que a comunicação se dá tanto no verbal quanto no não verbal.
Ser linguista me deu ferramentas para escrever com profundidade e leveza
Estudar a linguagem me fez enxergar os caminhos pelos quais a comunicação atravessa a infância. Na construção dos meus livros, penso:
nas sonoridades que acolhem e divertem
nas imagens que falam mesmo sem texto
nas pausas que deixam espaço para imaginar
nas escolhas que respeitam a inteligência sensível da criança
Ser linguista me ajuda a reconhecer a diversidade das formas de ler o mundo, e, com isso, a criar livros mais acessíveis, mais afetivos e mais ricos em significados.
Escrever para crianças é dialogar com muitos mundos
Cada livro que escrevo carrega um compromisso: conversar com a infância de forma honesta, poética e significativa. E isso não vem só da emoção, vem também da escuta técnica, da observação, do estudo da linguagem como ferramenta de expressão e transformação.
A Linguística me ensinou a respeitar o silêncio, a entrelinha, o gesto, o ritmo e o olhar. Tudo isso está nos meus livros — mesmo quando a criança não sabe nomear, ela sente.
Escrever histórias é o que me move. Estudar a linguagem é o que me aprofunda. Juntas, essas duas paixões me permitem tocar as infâncias com mais verdade.